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"O Amante" da autoria de Marguerite Duras

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Leitor "O Amante" da autoria de Marguerite Duras

Mensagem por Linda497 em Qui 17 Mar 2011 - 17:15


Antes de ler o livro

1. Identificação do livro

1.1. Título: “O Amante”
1.2. Autora: Marguerite Duras
1.3. Editora: DIFEL (Difusão Editorial, Lda.)
1.4. Data da Edição: 1984

2. Escolha do livro

2.1. Motivos que levaram à escolha do livro.

A leitura da obra “Os Insolentes” da autoria de Marguerite Duras despertou-me o interesse pela complexidade resultante de circunstâncias sociais, culturais e psicológicas que constitui esta inconfundível autora. A sua vida é, simplesmente, extraordinária e as suas obras são denotadas de uma emotividade sem igual. As suas memórias são descritas de tal forma, que são capazes de fazer com que estabelecemos um elo de ligação com a imagem de sofrimento que a autora pretende transmitir. Marguerite Duras, ela própria, é uma contrariedade.
Assim, decidi pesquisar outras obras da sua autoria. Dessa pesquisa, tomei conhecimento de que Marguerite Duras obteve conhecimento de um público vastíssimo, aquando da publicação do seu romance “O Amante”, que lhe valeu o prémio Goncourt de 1984. Li críticas, análises e comentários acerca desta obra, sendo que todos remetiam para o facto de ser uma leitura perturbante. Tendo uma enorme fascinação por esta autora, tornou-se leitura obrigatória para mim.



Após a leitura do livro


3. Contextualização do Autor

3.1 Alguns dados biográficos

Marguerite Duras nasceu a 4 de Abril de 1914, em Saigão, na Indochina francesa (actual Vietname), onde passou a infância e adolescência, tendo ficado profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa. Em 1932, fixou-se em Paris, onde estudou Direito, Matemática e Ciências Políticas, tendo ingressado, posteriormente, no Partido Comunista Francês, de onde viria a ser expulsa por dissidências ideológicas. Obteve renome internacional com a publicação do romance “Un barrage contre le Pacifique” (1950). Autora de peças de teatro e de vários filmes, entre os quais o célebre “Hiroshima, Meu Amor”, foi o seu romance “O Amante” (prémio Goncourt de 1984) que a tornou conhecida de um público vastíssimo. Faleceu a 3 de Novembro de 1996, em Paris.

3.2. Outras Obras da Autora

“A Dor”;
“Os Insolentes”;
“O Amante da China do Norte”;
“O Deslumbramento”.

4. Conteúdo do Livro

4.1. Género Literário: Narrativa autobiográfica

4.2. Assunto (breve síntese)

Esta obra traz-nos relatos de episódios marcantes da vida da personagem principal (Marguerite Duras). A acção decorre num cenário exótico, em Saigão. O início da história da protagonista baseia-se, essencialmente, numa desagregação e posterior enfraquecimento de relações familiares e laços afectivos numa família assente na monoparentalidade. A desgraça emocional da progenitora – bipolar e maníaco-depressiva -, em aliança com a instabilidade financeira da família, leva à dificuldade de estabelecer normas e padrões de comportamento. Assim, a família mergulha numa situação de “pobreza envergonhada”, vivendo em função das aparências que, por sua vez, são primordiais para manter a imagem de que tinham até aí usufruído. A protagonista é uma jovem adolescente de quinze anos e meio, cujo temperamento é rebelde. Essa rebeldia expressa-se na sua forma de vestir que tende para uma certa androginia em consonância com a sua ambiguidade sexual. É dotada de uma inteligência invulgarmente perspicaz e de uma sensibilidade fora do comum. No entanto, toda a conjuntura familiar obriga-a a crescer rapidamente, despertando para a vida sexual antes dos dezasseis anos. Tem dois irmãos: o mais velho é um indivíduo indolente, violento e irresponsável, enquanto que o mais novo é sensível, carente, meigo e submisso. Este viria a falecer ainda muito novo, pois o seu coração não resistiu a uma broncopneumonia.
Durante a travessia do rio “Mékong”, esta jovem conhece aquele que viria a ser seu amante. De origem oriental – chinês -, tem vinte e sete anos, é extremamente rico, apaixonado e emocionalmente frágil. Para além disso, é extremamente devoto à família e é fisicamente delicado. O desprezo da família dela pelo seu amante advém dessas mesmas características, uma vez que tanto a mãe como o irmão mais velho nutrem um certo desprezo por aqueles que são débeis. Sendo, assim, a protagonista aborda e critica o racismo europeu em relação aos orientais. O relacionamento entre estes dois seres excepcionais torna-se, por vezes, obsessivo, desesperado, pelo facto de não ser socialmente aceite, obrigando-os a permanecerem confinados nos limites de quatro paredes (apartamento onde se encontram). É ela que, na maioria das vezes, domina a relação. O desejo que o amante chinês sente pelo seu magro corpo transformou as suas dúvidas em qualidades, descobrindo que o tinha à sua mercê. A partir daí, é possível verificar que a mãe da jovem começa a considerar o seu corpo aceitável.
Ao longo do romance, deparamo-nos com o facto de que o nome dele nunca é mencionado. É uma bela história de amor de um amante sem nome que desperta a intensidade na narrativa que envolve as duas personagens. A autora refere-se aos amantes por “ele” e por “ela”.
Por outro lado, a jovem sente-se atraída pela sua colega de quarto do pensionato que frequenta em Cholen, “Hélène Lagonelle”, devido à convergência da sua libido masculina, confirmando que a sua orientação sexual não estaria completamente definida. Talvez, por isso, “Hélène” tenha direito a um nome, pois trata-se de uma transgressão não consumada. O mesmo não acontece com o amante chinês que é uma paixão/transgressão social concreta consumada transportada para o plano real.
Finalmente, os dois últimos parágrafos são a vingança face à prepotência ditada pelas circunstâncias sociais, culturais e psicológicas que marcaram o passado e condicionaram o futuro dos dois amantes. É de salientar que uma das partes mais importantes desta obra é a descrição que ela faz do seu próprio rosto.
Um livro que fala do amor inter-racial no contexto do imperialismo francês.


4.3. Citações favoritas (se necessário, explicadas no contexto)

“Um dia, já eu era velha, um homem dirigiu-se-me à entrada de um lugar público. Deu-se a conhecer e disse-me: "Conheço-a desde sempre. Toda a gente diz que você era bonita quando era nova, vim dizer-lhe que, para mim, acho-a mais bonita agora do que quando era jovem, gostava menos do seu rosto de mulher jovem do que daquele que tem agora, devastado. "

“A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há um centro. Não há caminho, nem linha. Há vastos lugares onde se faz crer que havia alguém, não é verdade, não havia ninguém.”

“A mãe diz: aquela nunca ficará satisfeita com coisa nenhuma. Acho que a minha vida começou a mostrar-se-me. Acho que já sei dizer-mo, tenho vagamente vontade de morrer. Esta palavra, já não a separo da minha vida. Creio que me apetece vagamente estar sozinha, tal como me apercebo de que já não estou só desde que deixei a infância, a família do Caçador. Vou escrever livros. É o que vejo para além do instante, no grande deserto sob a aparência do qual me surge a vastidão da minha vida.”

“E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.”


4.4. Opinião sobre o livro

A leitura desta obra foi muito gratificante para mim, em parte por ser baseada em factos verídicos (memórias da vivência da autora). Confesso que foi um tanto perturbante, devido ao elevado teor emocional que acentua a emotividade patente nas palavras. Senti-me um pouco sufocada e angustiada, nomeadamente, quando a protagonista se referia à mãe e ao irmão mais velho – o ódio que ela nutre por eles é transmitido ao leitor de uma forma aterrorizadora, tal é a nitidez quase palpável de toda a obra. É uma leitura obsessiva de grande intensidade. Só pelo facto de não ser referido o nome do amante, a obra remete para o perigo, para o desejo, para a ânsia de desvendar o desconhecido (forma de autoconhecimento). É extremamente sensorial, predominando as sensações tácticas (sinestésico). Aprecio leituras que exigem reflexão e esta não foi excepção. Para além disso, gosto de obras que retratem sociedades/culturas diferentes e que exigem um certo grau de maturação por parte do receptor. Sem dúvida, Marguerite Duras é excepcional.
Uma catarse pela pena de uma das autoras mais lidas no século XX.


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Leitor Re: "O Amante" da autoria de Marguerite Duras

Mensagem por Filipe Azevedo em Seg 4 Abr 2011 - 13:21

Apresentação muito bem escrita, interessante e emotiva.

Excelente partilha de vivências e sensações de leitura na secção de "opinião", revelando uma visão personalizada da obra. Muito bem!

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