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Análise: "Madame Bovary", Gustave Flaubert

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Leitor Análise: "Madame Bovary", Gustave Flaubert

Mensagem por Rita Pereira em Qui 1 Mar 2012 - 15:42

1.1. Madame Bovary
1.2. Gustave Flaubert
1.3. Abril ControlJornal
1.4. Agosto de 2000

2.1. Escolhi ler este livro devido ao facto de ter começado a gostar particularmente de livros pertencentes à corrente realista. Assim sendo, é óbvio que teria de ler a obra considerada iniciadora desta mesma corrente e assim o fiz no início desde ano com Madame Bovary.

3.1. Gustave Flaubert, considerado o iniciador do Realismo, nasceu a 12 de Dezembro de 1821 em Ruão, França e faleceu a 8 de Maio de 1880. Filho de um médico, Flaubert inicia a sua actividade literária bastante cedo, por volta dos 8 anos de idade mas apenas publica o seu primeiro livro Rêve d’enfer em 1837.
As suas obras realistas são baseadas nos problemas da sociedade francesa (na crítica social, portanto) e na sua própria vivência tumultuosa, visto que o escritor terá passado por várias experiências de cariz amoroso e sexual, nomeadamente o amor da sua vida a quem apenas se confessou por carta às portas da morte, Élisa Schlésinger, inspiradora de Memoirs d’un fou e Éducation Sentimentale.
Como autor realista, Flaubert é várias vezes descrito como um homem perfeccionista devido à sua escrita minuciosa e “brilhantes detalhes” com que consegue descrever na perfeição todos os espaços e articulá-los construindo uma verdadeira obra-prima realista. Segundo o crítico James Wood em How Fiction Works, por estas características já apresentadas Flaubert pode ser considerado o expoente máximo da “narração realista moderna” tendo conseguido, neste aspecto, ir ainda mais longe que Daniel Defoe (Robinson Crusoe), Jane Austen (Orgulho e Preconceito) ou até Honoré de Balzac (La Comédie Humaine).

3.2. Outras obras do autor: Apesar de Madame Bovary ser, sem sombra de dúvidas, a obra mais importante do autor, Gustave Flaubert também é muito famoso pelo romance histórico Salammbô (1862) fruto da sua viagem ao Oriente com o amigo próximo Maxime Du Camp; por Trois Contes, Un Coeur Simple, em que se inspirou na sua empregada Julie e por L’Éducation Sentimentale, considerada um dos marcos literários do séc. XIX pelo jornalista e escritor Henry James ou pelo naturalista Émile Zola.





Fig.1- Jennifer Jones, a actriz que interpretou Madame Bovary em 1949, na primeira adaptação cinematográfica da obra de Flaubert.

4.1. Realismo
4.2. A trama da magnum opus de Gustave Flaubert, foca-se precisamente na história de Madame Emma Roualt Bovary, uma mulher que se casa com o médico Charles Bovary após a morte da sua primeira esposa.
Como é típico nas histórias realistas, Emma, infeliz com o seu casamento (muito por ter casado com um homem de quem realmente não amava) vai procurando ao longo do tempo um escape à vida monótona e provincial que inicialmente escolheu. Fruto dessa infelicidade e com a “ajuda” da sociedade burguesa corrupta da altura, a mulher conhecida pelos seus “tamanquinhos” acaba por cometer adultério e tornar-se a causadora de todos os males que acontecem à sua família.

4.3. Visto que seria impossível colocar aqui todas as minhas citações predilectas, resolvi apenas ajustar as mais marcantes do ponto de vista literário às que mais me agradaram pessoalmente (e espero agradar) aos que as irão ler.

“Mas não bastava ter criado o filho, tê-lo feito estudar Medicina e descobrir Tostes para ele exercer: era preciso arranjar-lhe mulher. Encontrou-lhe uma: a viúva de um oficial de diligências de Dieppe, que tinha quarenta e cinco anos e duzentas libras de rendimento. Embora fosse feia, seca como um cavaco e com borbulhas sempre a rebentar como os botões na Primavera, o certo é que a senhora Dubuc não tinha falta de pretendentes a quem escolher. (…) a mãe Bovary foi obrigada a escorraçá-los todos (…)”

Neste excerto (referente ao início da obra e ao primeiro casamento do futuro médico) verifica-se, nitidamente, a crítica que o narrador heterodiegético faz à personalidade da mãe de Charles Bovary. Esta é a “condutora” da vida amorosa e profissional do filho pois é a sua mãe que constrói toda a vida do futuro médico sem deixar que este tome parte nela. Assim se faz também a caricatura de Charles Bovary e da própria Madame Bovary-mãe não só neste momento mas também ao longo da obra e ao longo da vida dos dois. A mãe Bovary é então uma das personagens criticadas na obra, demonstrando-se uma grande parte do que pretende a corrente realista é: fazer críticas à sociedade interesseira, protectora e retrógada do séc. XIX.
Em segundo lugar, há a destacar também a ironia que Gustave Flaubert utiliza para descrever a primeira mulher do médico. Os adjectivos e a comparação servem para dar ênfase à caracterização propositadamente disforme que se faz de uma senhora, aparentemente de altos estatutos sociais e através dela vaticinar o destino do futuro casal.

“A partir de então, aquela recordação de Léon tornou-se o centro do seu tédio. Nele crepitava com mais força do que, numa estepe russa, uma fogueira de viajantes abandonada na neve. Emma corria para ela, chegava-se-lhe tão perto quanto podia, remexia delicadamente aquela fogueira quase a extinguir-se, ia buscar por toda a parte ao seu redor tudo o que pudesse avivá-la mais (…) os projectos de felicidade que estalavam ao vento como ramos secos (…) tudo juntava, tudo apanhava, e tudo lhe servia para lhe aquecer a tristeza. (…) O amor extinguiu-se, pouco a pouco; aquele clarão que lhe tingia de púrpura o céu pálido cobriu-se de mais sombras e extinguiu-se gradualmente (…) mas como o furacão continuava a soprar e a paixão se consumiu até às cinzas, e não chegou qualquer auxílio, e nenhum sol apareceu, por todos os lados se fez noite cerrada e ela ficou perdida no meio de um horrível frio que a trespassava.”

Já neste excerto o narrador relata-nos o que sente Madame Emma Bovary após Léon, o seu amante, a abandonar e viajar para Paris, onde irá estudar Direito.
Assistimos a uma metáfora genialmente materializada por Flaubert onde, à semelhança de em Amor é fogo que arde sem se ver de Luís Vaz de Camões, se trata o sentimento de amar através de nomes intensos que representam os elementos primordiais, como a neve (água); vento (ar); fogueira (fogo) e as cinzas (terra).
Esta metáfora permite-nos perceber o que sente Emma quando Léon a abandona: a fogueira dos viajantes simboliza o seu amor, abandonado pelo amante; ela tentava recordar-se de tudo o que tinha passado com o amante mas os “projectos de felicidade” desvanceram-se (os ramos secos, partes integrantes da Natureza simbolizam isso mesmo, a morte de algo) e continuava a ir buscá-los para se lembrar de tudo; para se consolar.
Seguidamente, observa-se que o amor que sentia se extinguiu; o seu “céu”/a sua vida foi ficando cada vez mais negra, e Emma, sem qualquer tipo de ajuda, sem “nenhum sol”, ficou com a alma quase morta e o seu espírito decadente (algo que se materializa na ruína a que leva a própria família).

4.4. Em relação a outras obras do mesmo género que já li, Madame Bovary destaca-se pela personalidade conferida à personagem principal, Emma. Normalmente são sempre os homens a levar as mulheres à ruína; mas neste caso Gustave Flaubert brilhantemente faz (por meio de descrições geniais como as explicitadas acima) com que seja Emma quem destrói a sua vida e a vida dos que a rodeiam. Esta é uma mulher orgulhosa que para levar os seus caprichos avante não olha aos meios para atingir os seus fins. Mas se esta é a causadora de tudo o que acontece de mal na acção, também há que frisar que, tal como na vida, é nos maus momentos que se descobre quem e o que realmente importa, e Emma também dá essa dimensão à história.
Deliciosamente satírica, romântica, dramática e culturalmente enriquecedora: são as características desta Madame Bovary que profundamente aconselho a quem gosta de ler ou simplesmente a quem gosta de uma boa história.

Rita Pereira
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