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"Cada Homem é uma Raça" de Mia Couto

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"Cada Homem é uma Raça" de Mia Couto

Mensagem por Filipe Azevedo em Dom 8 Out 2006 - 3:59

Este é um livro da Caminho e é a 6ª edição de 1990 drunken

Comecei agora mesmo a ler. São contos, o que é habitual neste escritor.
bom
Resolvi fazer uma experiência de leitura para ver o que os outros achavam:


Li o meu livro à minha estante de livros.

A primeira reacção foi a de que os outros livros acharam que já sabiam tudo, que já conheciam todas as histórias, que não precisavam de mais esta. Alguns agitaram nervosamente as páginas, outros bocejaram as capas. No entanto, outros mais pequenos, meio escondidos entre os Best Sellers e os Clássicos da Literatura, começaram a abrir muito as letras, concentrados na minha leitura, a tentar compreender a história que o livro na minha mão contava.

A história era simples, falava apenas da Rosa Caramela, corcunda e louca, que adorava estátuas de pedra. Não tinha aquelas grandes frases que são referências literárias, nem se perdia em teias de personagens e acontecimentos importantes que tanta falta nos fazem para a nossa cultura geral. Mas foram os pequenos livros que primeiro perceberam que nada disso era preciso para se contar uma boa história. E os grandes foram progressivamente ouvindo…

Primeiro estancou um que não usava uma pontuação normal e logo de seguida estarreceram outros que tinham o hábito da dupla adjectivação ou do discurso indirecto livre. Às tantas todos ouviam sossegados mas inquietos aquela simples história da Rosa Caramela que passou a ser só Rosa porque lhe chamavam Caramela. E depois aquelas palavras torcidas que destorciam o seu sentido para passar a significar o que verdadeiramente significavam sem nunca o terem significado.

No final, na minha estante de livros, viam-se que nalguns o título tinha mudado de cor, outros trocavam nervosamente as páginas e alguns deixavam escorrer timidamente uma exclamaçãozinha junto à lombada.

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Agora que já o li...

Mensagem por Filipe Azevedo em Qua 18 Out 2006 - 14:56

Alguns dados biográficos
Mia Couto é o nome de António Emílio Leite Couto que nasceu na cidade da Beira, Moçambique, em 1955.
A sua escrita é original, simples. Aborda tema muito próprios da comunidade moçambicana, dos seus costumes e valores.
Actualmente, Mia Couto é um dos nomes de referência da literatura moçambicana, em particular, e da africana, em geral. É conhecido mundialmente, estando a sua obra traduzida em várias línguas. Em 1999 foi galardoado com o Prémio Vergílio Ferreira, que é um prémio importante da literatura portuguesa.

Outras Obras
Terra Sonâmbula, 1992
Estórias Abensonhadas, 1994
A Varanda do Frangipani, 1996
Cronicando, 1996
Contos do Nascer da Terra, 1997
Vozes Anoitecidas, 1997
Vinte e Zinco, 1999
Raiz de Orvalho e Outros Poemas, 1999
Mar Me Quer, 2000
O Último Voo do Flamingo, 2000
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, 2002
O Fio das Missangas, 2004

Género Literário
Contos africanos

Assunto
São vários os contos, todos eles com uma personagem surpreendente e com uma história inesperada. O primeiro é "A Rosa Caramela" e o último "Os mastros de Paralém".
As histórias têm uma componente de magia e de fantástico que muitas vezes é também uma mensagem muito humana.

Citações favoritas
"Nessa noite, eu desconsegui de dormir. Saí, sentei minha insónia no jardim da frente." pág. 23

"Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso." pág. 97

"Certa vez, porém, passou por ali um forasteiro. Era homem sem retrato nem versões. Se muito chegou, mais ficou. Todos receavam o medonhável intruso, o irreputado intromissionário. Nos olhos dele, em verdade, não aparecia nenhuma alma, parecia o cego espreitando fora das órbitas." pág. 133

Opinião sobre o livro
A linguagem deste escritor é verdadeiramente surpreendente. Ele recria a língua portuguesa. Já não é português mas é tão português. Devolve-nos uma nova habilidade de usar a nossa língua. Depois de o lermos, o omnipotente inglês já não vale nada. Eu, pelo menos, fico com uma vontade enorme de brincar com as palavras portuguesas.
Neste livro em particular gosto especialmente do conto "A lenda da noiva e do forasteiro" onde se questiona a imaginária fronteira do tempo...

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